Foto: Créditos / Reprodução - Arquivo Pessoal
Funcionários da São Francisco em luto; mais um motorista da empresa é assassinado em Maceió
Imagine você, cidadão maceioense, sair para trabalhar como sempre costuma fazer diariamente. E que depois de um dia inteiro de atividades, quando está prestes a voltar à sua casa, acontece algo para mudar a rotina do seu dia. Um assalto. Os bandidos levam seus pertences, sua coragem e sua honra, deixando-o destruído, sem forças e coragem. Fogem, como quem não quer nada, debochando por ter conseguido realizar mais um ato de covardia.
Mas você precisa se reerguer. E precisa voltar à ativa, afinal de contas, tem uma família para sustentar, filhos, que precisam de você, de seu amor, carinho e proteção. Portanto, mesmo depois de um acontecimento, digamos, traumático em sua vida, você se levanta, toma banho, almoça e decide, sim, ir trabalhar, tentando fingir como se nada tivesse acontecido no dia anterior.
Por sorte, enquanto está se deslocando para o trabalho, você tem a oportunidade de pegar uma carona - seus amigos, que também se direcionam ao local, o convidam e, naturalmente, você aceita e durante o caminho, vai contando que foi assaltado na noite anterior. O clima pesa, o silêncio domina o ambiente, mas logo em seguida, alguém faz uma piada e todos começam a dar risada. Mas os poucos segundos de diversão, paz e tranquilidade registrados naquele instante após o ouvir da piada contada por um dos amigos, se quebram quando uma frase é anunciada: Isso é um assalto.
De repente, o ocorrido de ontem torna-se a repetir. No mesmo local, porém mais cedo, mais claro. Um novo assalto, ou então, mais um para o seu curriculum, só que dessa vez, além de você, os bandidos resolvem atacar todos os seus companheiros de trabalho presentes no local. Não há mais horário para violência em Maceió. Sim, estamos falando do caso ocorrido na tarde da última quinta-feira, dia 29 de novembro, quando a cidade presenciou mais um ato de violência contra a classe rodoviária.
O motorista Josecler dos Santos Galvão, 45 anos, foi assassinado após reagir a um assalto nas proximidades da Mafrial, no bairro do Rio Novo, quando se dirigia para mais uma tarde de trabalho. Ele era funcionário da empresa São Francisco e costumava fazer a linha 057 - Rio Novo / Centro / Via Farol e, na noite anterior, já tinha sido assaltado enquanto trabalhava na linha 715 - Rio Novo / Ponta Verde / Via Shopping. Ambos os carros estavam fazendo um percurso diferenciado há cerca de 9 meses, quando ao invés de descerem a "conhecida ladeira de Fernão Velho", estavam indo pela BR-316, descendo pela Ladeira do Catolé, passando pela Mafrial para, enfim, conseguir chegar ao bairro por conta de uma obra da Casal, que bloqueou o percurso que liga Fernão Velho à Rio Novo.
Foto: Créditos / Reprodução - Arquivo Pessoal
Na tarde da última quinta, 29, rodoviários da empresa São Francisco pararam as atividades em protesto pela morte de Josecler.
O crime revoltou a categoria que, no mesmo dia, resolveu protestar contra a violência na cidade. Protestos foram realizados na Avenida Durval de Góes Monteiro, no Tabuleiro dos Martins, e no Terminal Integrado do Colina dos Eucalíptos - onde vários coletivos da empresa São Francisco pararam suas atividades por cerca de uma hora e meia. A população era obrigada a descer dos ônibus e demonstrou revolta. Com os ânimos mais calmos, porém, alguns conseguiam passar apoio, mas torcendo para que a forma de protesto dos mesmos não pudessem mais prejudicá-los.
Mas, para quem não sabe, esse não foi o primeiro ato violento contra algum rodoviário da empresa São Francisco e que opera na linha Rio Novo. No mês de setembro, uma discussão entre um motorista e um passageiro terminou em morte - do rodoviário. Segundo informações, o crime, realizado no terminal do bairro, ocorreu enquanto o motorista se preparava para sair viagem rumo à Ponta Verde. Na semana seguinte, outro coletivo da linha (dessa vez, via Centro) foi atacado por bandidos no conjunto Medeiros Neto e a suspeita era de que o algoz teria se confundido ao matar a vítima anterior. Os criminosos ainda não foram presos. As famílias, por sua vez, sofrem com a perda dos parentes.
O caso mais recente, de Josecler, teve um encerramento trágico e, ao mesmo tempo, emocionante. Enterrado na manhã do último sábado, 1, o motorista foi homenageado com discursos de alguns colegas de farda, além de uma salva de palmas para aquele que era amigo de todo mundo e, segundo seus amigos, será sempre lembrado com carinho e alegria por todos. Vai com Deus, Pipoca.
Em tempo
A empresa São Francisco lidera, mais uma vez, o ranking de assaltos à ônibus na cidade. De janeiro até o dia 29 de novembro, 214 coletivos foram alvo de bandidos e só a linha mais assaltada do grupo, a linha mais assaltada, Ufal / Ponta Verde / Via Iguatemi, contabilizava 48. Mas, do dia 29 até hoje, o número já subiu. Informações preliminares dão conta de que já são mais de 220 coletivos e que, inclusive, no dia em que Josecler foi assassinado, um ônibus da empresa foi assaltado. Sem contar que, na noite do sábado, nas proximidades do Santos Dumont, um assalto ao coletivo da linha 711 foi registrado por cobrador e motorista na Central de Polícia.
Dados da violência
Os números assustam mais após o relatório da PM apontar que, em 11 meses, cerca de 500 assaltos à coletivos foram registrados na cidade e quase a metade do número está sob a empresa São Francisco. Ainda segundo o mesmo relatório, o horário de preferência dos bandidos varia entre 19h e 22h, nos bairros do Clima Bom (próximo à Praça Padre Cícero e/ou ao terminal do conjunto) e Jacintinho (no trecho entre a Rádio 96fm e a TV Alagoas). Além disso, os bandidos estão de olho naquelas linhas em que o percurso é maior, visto que a concentração de dinheiro durante o percurso aumenta de acordo com a quantidade de pagantes.
Foto: Créditos / Reprodução - Marcos Lisboa (Ônibus Brasil)
A linha 711 - Ufal / Ponta Verde, da empresa São Francisco, ocupa o 1º lugar na lista dos ônibus mais assaltados de Maceió.



