Conheça um pouco mais da história de um dos bairros mais tradicionais de Maceió
Antes, uma sequência de sítios aonde moravam muitas famílias. Agora, um dos bairros mais tradicionais de Maceió que, infelizmente, não conseguiu acompanhar o ritmo de crescimento acelerado da cidade. Bebedouro era apenas um riacho. Ou melhor, era apenas um local aonde tropeiros e viajantes aproveitavam para descansar após os longos trajetos, tomar água, banho, além de banhar aos seus animais.
A origem do bairro vem justamente daí. De uma região que antigamente era, por inteiro, chamada de Mutange (que hoje vem antes do nosso ponto de conversa), um bebedouro era o responsável por matar a sede, tanto dos viajantes que apareciam na cidade, quanto das pessoas que moravam nas redondezas.
Sendo considerado o único caminho de ligação entre Maceió e o interior, as pessoas e os animais que por lá transitavam paravam entre os riachos do Silva e riacho do Peru, que se juntavam à ponte da estrada de ferro. Foi então que o lugar passou a ser conhecido como “ponte (ou passagem) de Bebedouro” e é assim até hoje.
O porto de Bebedouro, que deu nome ao bairro, aonde os viajantes aproveitavam para descansar
Tradicionalismo
A história de Bebedouro tem a marca da família Nunes Leite. Mais precisamente do comendador Jacinto José Nunes Leite, um ilustre cidadão português, que colaborou com a fundação do bairro e se fixou na região, vindo a colaborar, mais tarde, com o seu desenvolvimento.
Dentre as várias conquistas do comendador, uma delas foi a concessão para a construção do serviço de água canalizada. Foi no dia 23 de outubro de 1885 que Jacinto inaugurou a primeira etapa das obras, o que viria a conclamar Mutange e Bebedouro como os dois primeiros bairros a se beneficiarem com água encanada.
Mas a trajetória de Jacinto José Nunes Leite foi marcada, também, pelo comércio. Ou melhor, pelo sucesso comercial. O comendador chegou a implantar, em Bebedouro, o engenho de açúcar, cujo progresso foi se dando aos poucos até se tornar um espaço urbano preferido pela burguesia entre o século XIX e início do século XX.
Além disso, Jacinto comandou a Fundação Alagoana, em Jaraguá e a fábrica de vidros Leite & Leite, em parceria com seu irmão, entre os anos de 1920 e 1928. A família, por sua vez, faz questão de manter o “Solar Nunes Leite”, situado ao lado da Praça Lucena Maranhão, a principal de Bebedouro, que também cede espaço à tradicional Paróquia do bairro.
Visão do tradicional Solar Nunes Leite, da família do comendador Jacinto, ilustre cidadão português, que colaborou com o desenvolvimento da comunidade bebedourense
Antes
e depois
Em
seus tempos áureos, Bebedouro foi, inicialmente, considerado como um
“bairro nobre” da cidade. Mas isso foi mudando com o passar dos
anos, quando o bairro foi dando lugar às camadas mais pobres, não
só da cidade, como também do Estado. As pessoas começaram a vir do
interior para morar em Bebedouro, construindo casas humildes que
foram, aos poucos, descaracterizando a “nobreza” bebedourense.
Foi
a partir daí que Bebedouro passou a ser um bairro com explícitas
características populares, apresentando forte crescimento comercial.
Ao transitar por sua avenida principal, Major Cícero de Goes
Monteiro, nota-se a presença de açougues, supermercados, padarias,
de pessoas que vendiam (e ainda vendem) suas mercadorias nos cantos
das calçadas (frutas e verduras, por exemplo), lanchonetes e dentre
outros estabelecimentos que proporcionam aos moradores uma
praticidade que antes não existia.
Aos
poucos, também, foram surgindo os meios de transporte. Por uma
iniciativa do comendador Jacinto José Nunes Leite, surgiu a
Companhia Alagoana de Trilhos Urbanos (CATU) que, primeiramente,
utillizava bondes à tração animal. Porém, como o local era de
difícil acesso, os bondes não conseguiam transitar por algumas
ruas, tanto em Bebedouro, quanto no Cambona, o que provocou uma
interessante mudança no sistema.
Bondes passam a ser eletrificados, quando a energia elétrica ainda era novidade em Bebedouro
Os
bondes, então, foram eletrificados, numa época em que a energia
elétrica ainda não havia chegado por inteiro ao bairro, fazendo com
que a população pudesse se mobilizar de uma forma mais prática,
visto que eles faziam percursos entre os bairros do Farol, Ponta da
Terra e Jaraguá, além de passar pelo Comércio, cujo terminal se
localizava na Praça dos Martírios.
As
viagens tinham fluxo maior devido ao grande movimento, o que mostrava
o aparente crescimento da população de Bebedouro. Trens, ônibus e,
mais recentemente, o Veículo Leve sobre Trilhos (VLT), que atende a
cerca de 6 mil passageiros por dia, são outros meios de transporte
utilizados pelos moradores do bairro.
Outra
curiosidade é que o bairro, por sua vez, já “abrigou” outras
localidades adjacentes. Anteriormente, as Chãs da Jaqueira e de
Bebedouro, Mutange e Bom Parto eram uma localidade só. Mas devido ao
crescimento populacional de todos os bairros citados, hoje, Bebedouro
abriga apenas a Chã como conjunto. Vale ressaltar ainda a bela vista
da Lagoa Mundaú, proporcionada por quem passa de ônibus pelo
Mirante da Chã de Bebedouro. A praça do local, assim como muitas
outras espalhadas por Maceió, está abandonada, mas ainda serve como
ponto de encontro dos moradores em qualquer hora do dia.
Fim de tarde no Mirante da Chã de Bebedouro; vista proporcionada pela localização é uma das mais belas de Maceió
Educação
também é destaque
Outro
ponto que não se deve deixar passar em branco ao falarmos de
Bebedouro é a trajetória do tradidional Colégio Bom Conselho.
Surgido no bairro em 13 de junho de 1877, a instituição – que já
foi um internato – não é a mesma dos tempos áureos, quando
chegou a servir de abrigo para órfãs dos militares que participaram
da Guerra do Paraguai ou aos menores desvalidos.
Mas
a intenção do Dr. Antônio Passos de Miranda, então governador da
província, era melhorar a administração do Colégio e, com isso,
autorizou o funcionamento de uma sociedade beneficiente, que viria a
ser dirigida pelas senhoras da sociedade, que iriam ministrar o
ensino das primeiras letras e prendas domésticas. E assim foi até o
ano de 1938, quando o Governo de Alagoas transformou a instituição
em uma Escola Normal Rural Nossa Senhora do Bom Conselho.
O tradicional Colégio Bom Conselho, nos anos 20, totalmente diferente da visão dos dias atuais
Mais
tarde, em 1964, o Bom Conselho passa por mais uma transformação,
ganhando o curso Pedagógico. Hoje, 135 anos depois, o tradicional
colégio de Bebedouro sente as dificuldades (seja no ensino ou na
estrutura) como os outros do Estado, mas apesar disso, costuma
atender às necessidades dos alunos do bairro e costuma ser lembrado,
com orgulho, por aqueles que puderam vivenciar as suas “fases de
ouro”, como nos anos 70, 80 e 90.
O Colégio Bom Conselho, atualmente, não lembra em nada aos seus tempos de glória. Mas ainda assim, consegue suprir as necessidades educacionais da população do bairro de Bebedouro. Agora, restam apenas as lembranças
Um
bairro documentado
Detalhes
como esse e outros, inclusive, sobre a tradicional Paróquia de
Bebedouro podem ser conferidas na obra do professor José Ribeiro
Lemos, de nome “Bebedouro: Comunidade de História e de Fé.”
Escrito
em 2003, o livro contempla os 90 anos da criação da tradicional
Paróquia bebedourense, além de ressaltar os 50 anos de ordenação
sacerdotal do bispo Dom Fernando Iório Rodrigues, relatando diversos
fatos marcantes da história do lugar, nas palavras de historiadores
e moradores.
A tradicional Paróquia de Bebedouro e seu aniversário de 90 anos foi, em 2003, uma das motivações da escrita do livro "Bebedouro: Comunidade de História e de Fé"
Nas
palavras do autor, não foi fácil montar o livro, por conta da
ausência de fontes necessárias para o trilhar do caminho escolhido
pelos idealizadores, mas apesar de tudo, as pessoas se mostraram
contentes com a iniciativa e demonstraram suas memórias por meio de
depoimentos fidedignos quanto à história do local, que, com
certeza, ainda guarda muitas recordações.
Hoje,
como em qualquer outro local da cidade, Bebedouro passa por
problemas, seja na infraestrutura, saúde ou transporte. Mas, com
toda certeza, o bairro continuará sendo lembrado por todas as
glórias e maravilhas das quais passou, com seus moradores guardando
o desejo de que, um dia, Bebedouro possa voltar a ser como um dia já
foi: um bairro saudoso com forte tradição na alma e na fé.
A empresa São Francisco é responsável pelo transporte coletivo do bairro; a situação não é perfeita, mas a população torce para que um dia possa ser melhor. Ou, então, voltar a ser saudosa como nos tempos antigos de Bebedouro