domingo, 23 de setembro de 2012

Porque me chamo assim: Bebedouro

Conheça um pouco mais da história de um dos bairros mais tradicionais de Maceió

Antes, uma sequência de sítios aonde moravam muitas famílias. Agora, um dos bairros mais tradicionais de Maceió que, infelizmente, não conseguiu acompanhar o ritmo de crescimento acelerado da cidade. Bebedouro era apenas um riacho. Ou melhor, era apenas um local aonde tropeiros e viajantes aproveitavam para descansar após os longos trajetos, tomar água, banho, além de banhar aos seus animais.

A origem do bairro vem justamente daí. De uma região que antigamente era, por inteiro, chamada de Mutange (que hoje vem antes do nosso ponto de conversa), um bebedouro era o responsável por matar a sede, tanto dos viajantes que apareciam na cidade, quanto das pessoas que moravam nas redondezas.

Sendo considerado o único caminho de ligação entre Maceió e o interior, as pessoas e os animais que por lá transitavam paravam entre os riachos do Silva e riacho do Peru, que se juntavam à ponte da estrada de ferro. Foi então que o lugar passou a ser conhecido como “ponte (ou passagem) de Bebedouro” e é assim até hoje.



O porto de Bebedouro, que deu nome ao bairro, aonde os viajantes aproveitavam para descansar


Tradicionalismo
A história de Bebedouro tem a marca da família Nunes Leite. Mais precisamente do comendador Jacinto José Nunes Leite, um ilustre cidadão português, que colaborou com a fundação do bairro e se fixou na região, vindo a colaborar, mais tarde, com o seu desenvolvimento.

Dentre as várias conquistas do comendador, uma delas foi a concessão para a construção do serviço de água canalizada. Foi no dia 23 de outubro de 1885 que Jacinto inaugurou a primeira etapa das obras, o que viria a conclamar Mutange e Bebedouro como os dois primeiros bairros a se beneficiarem com água encanada.

Mas a trajetória de Jacinto José Nunes Leite foi marcada, também, pelo comércio. Ou melhor, pelo sucesso comercial. O comendador chegou a implantar, em Bebedouro, o engenho de açúcar, cujo progresso foi se dando aos poucos até se tornar um espaço urbano preferido pela burguesia entre o século XIX e início do século XX.

Além disso, Jacinto comandou a Fundação Alagoana, em Jaraguá e a fábrica de vidros Leite & Leite, em parceria com seu irmão, entre os anos de 1920 e 1928. A família, por sua vez, faz questão de manter o “Solar Nunes Leite”, situado ao lado da Praça Lucena Maranhão, a principal de Bebedouro, que também cede espaço à tradicional Paróquia do bairro.


Visão do tradicional Solar Nunes Leite, da família do comendador Jacinto, ilustre cidadão português, que colaborou com o desenvolvimento da comunidade bebedourense

Antes e depois
Em seus tempos áureos, Bebedouro foi, inicialmente, considerado como um “bairro nobre” da cidade. Mas isso foi mudando com o passar dos anos, quando o bairro foi dando lugar às camadas mais pobres, não só da cidade, como também do Estado. As pessoas começaram a vir do interior para morar em Bebedouro, construindo casas humildes que foram, aos poucos, descaracterizando a “nobreza” bebedourense.

Foi a partir daí que Bebedouro passou a ser um bairro com explícitas características populares, apresentando forte crescimento comercial. Ao transitar por sua avenida principal, Major Cícero de Goes Monteiro, nota-se a presença de açougues, supermercados, padarias, de pessoas que vendiam (e ainda vendem) suas mercadorias nos cantos das calçadas (frutas e verduras, por exemplo), lanchonetes e dentre outros estabelecimentos que proporcionam aos moradores uma praticidade que antes não existia.

Aos poucos, também, foram surgindo os meios de transporte. Por uma iniciativa do comendador Jacinto José Nunes Leite, surgiu a Companhia Alagoana de Trilhos Urbanos (CATU) que, primeiramente, utillizava bondes à tração animal. Porém, como o local era de difícil acesso, os bondes não conseguiam transitar por algumas ruas, tanto em Bebedouro, quanto no Cambona, o que provocou uma interessante mudança no sistema.


Bondes passam a ser eletrificados, quando a energia elétrica ainda era novidade em Bebedouro

Os bondes, então, foram eletrificados, numa época em que a energia elétrica ainda não havia chegado por inteiro ao bairro, fazendo com que a população pudesse se mobilizar de uma forma mais prática, visto que eles faziam percursos entre os bairros do Farol, Ponta da Terra e Jaraguá, além de passar pelo Comércio, cujo terminal se localizava na Praça dos Martírios.

As viagens tinham fluxo maior devido ao grande movimento, o que mostrava o aparente crescimento da população de Bebedouro. Trens, ônibus e, mais recentemente, o Veículo Leve sobre Trilhos (VLT), que atende a cerca de 6 mil passageiros por dia, são outros meios de transporte utilizados pelos moradores do bairro.

Outra curiosidade é que o bairro, por sua vez, já “abrigou” outras localidades adjacentes. Anteriormente, as Chãs da Jaqueira e de Bebedouro, Mutange e Bom Parto eram uma localidade só. Mas devido ao crescimento populacional de todos os bairros citados, hoje, Bebedouro abriga apenas a Chã como conjunto. Vale ressaltar ainda a bela vista da Lagoa Mundaú, proporcionada por quem passa de ônibus pelo Mirante da Chã de Bebedouro. A praça do local, assim como muitas outras espalhadas por Maceió, está abandonada, mas ainda serve como ponto de encontro dos moradores em qualquer hora do dia.


Fim de tarde no Mirante da Chã de Bebedouro; vista proporcionada pela localização é uma das mais belas de Maceió

Educação também é destaque
Outro ponto que não se deve deixar passar em branco ao falarmos de Bebedouro é a trajetória do tradidional Colégio Bom Conselho. Surgido no bairro em 13 de junho de 1877, a instituição – que já foi um internato – não é a mesma dos tempos áureos, quando chegou a servir de abrigo para órfãs dos militares que participaram da Guerra do Paraguai ou aos menores desvalidos.

Mas a intenção do Dr. Antônio Passos de Miranda, então governador da província, era melhorar a administração do Colégio e, com isso, autorizou o funcionamento de uma sociedade beneficiente, que viria a ser dirigida pelas senhoras da sociedade, que iriam ministrar o ensino das primeiras letras e prendas domésticas. E assim foi até o ano de 1938, quando o Governo de Alagoas transformou a instituição em uma Escola Normal Rural Nossa Senhora do Bom Conselho.



O tradicional Colégio Bom Conselho, nos anos 20, totalmente diferente da visão dos dias atuais

Mais tarde, em 1964, o Bom Conselho passa por mais uma transformação, ganhando o curso Pedagógico. Hoje, 135 anos depois, o tradicional colégio de Bebedouro sente as dificuldades (seja no ensino ou na estrutura) como os outros do Estado, mas apesar disso, costuma atender às necessidades dos alunos do bairro e costuma ser lembrado, com orgulho, por aqueles que puderam vivenciar as suas “fases de ouro”, como nos anos 70, 80 e 90.


O Colégio Bom Conselho, atualmente, não lembra em nada aos seus tempos de glória. Mas ainda assim, consegue suprir as necessidades educacionais da população do bairro de Bebedouro. Agora, restam apenas as lembranças

Um bairro documentado
Detalhes como esse e outros, inclusive, sobre a tradicional Paróquia de Bebedouro podem ser conferidas na obra do professor José Ribeiro Lemos, de nome “Bebedouro: Comunidade de História e de Fé.”

Escrito em 2003, o livro contempla os 90 anos da criação da tradicional Paróquia bebedourense, além de ressaltar os 50 anos de ordenação sacerdotal do bispo Dom Fernando Iório Rodrigues, relatando diversos fatos marcantes da história do lugar, nas palavras de historiadores e moradores.


A tradicional Paróquia de Bebedouro e seu aniversário de 90 anos foi, em 2003, uma das motivações da escrita do livro "Bebedouro: Comunidade de História e de Fé"

Nas palavras do autor, não foi fácil montar o livro, por conta da ausência de fontes necessárias para o trilhar do caminho escolhido pelos idealizadores, mas apesar de tudo, as pessoas se mostraram contentes com a iniciativa e demonstraram suas memórias por meio de depoimentos fidedignos quanto à história do local, que, com certeza, ainda guarda muitas recordações.

Hoje, como em qualquer outro local da cidade, Bebedouro passa por problemas, seja na infraestrutura, saúde ou transporte. Mas, com toda certeza, o bairro continuará sendo lembrado por todas as glórias e maravilhas das quais passou, com seus moradores guardando o desejo de que, um dia, Bebedouro possa voltar a ser como um dia já foi: um bairro saudoso com forte tradição na alma e na fé.

A empresa São Francisco é responsável pelo transporte coletivo do bairro; a situação não é perfeita, mas a população torce para que um dia possa ser melhor. Ou, então, voltar a ser saudosa como nos tempos antigos de Bebedouro


4 comentários:

  1. Excelente matéria, muito obrigado! Que Deus te abençoe e que haja Paz no nosso histórico bairro.

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  2. Excelente matéria sobre um dos bairros da nossa amada Maceió. Parabéns!

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  3. Vc está de parabéns essa sua matéria mim feis
    recorda meu passado

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